sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Professora do sono e Sono Polifásico

1)Professora do sono
As escolas ajudariam os adolescentes a aprender melhor se os deixassem dormir mais tempo de manhã - aliás, o ideal seria que as aulas só começassem à tarde. "Posso assegurar que deixar os jovens mais tempo na cama seria recomendável."
A frase soaria como uma espécie de estímulo à preguiça ou defesa da vagabundagem não fosse dita pela neuropediatra Márcia Pradella, cuja grande razão de levantar todos os dias da cama é brigar com os problemas de sono dos estudantes -o que, obviamente, torna a sua vida mais agitada a partir desta semana, quando iniciam as aulas.
Por trás dessas dicas de saúde que soam estranhas aos pais e professores, há um laboratório criado por Márcia, na década de 1990. "Pouca gente já sabe como os problemas de sono minam os estudantes."
Formada em neurologia pediátrica, Márcia conseguiu ser aceita num programa de pesquisas na Bélgica, onde se estudavam distúrbios de sono dos adultos. Como tinha interesse em neurologia infantil, ela começou a participar de pesquisas sobre a dificuldade de dormir das crianças e dos adolescentes.
Apesar dos convites para continuar a fazer pesquisas na Europa, preferiu voltar ao Brasil, onde imaginava que poderia realizar atendimentos. "Estava cansada de ficar só em laboratório", conta ela. Quase se arrependeu - até porque ela, preocupada, começou a perder um pouco o sono.
Márcia já estava havia seis anos fora do país e tinha perdido muitos de seus contatos médicos. No Brasil, pouco se falava em tratamento dos distúrbios do sono, muito menos nos problemas relacionados a crianças e adolescentes. Para complicar a adaptação, voltou acompanhada de seu marido, um irlandês que dava aulas de inglês no ensino médio. Ambos, na Europa, viviam bem e tinham salário fixo -no Brasil, estavam desempregados. "Na prática, eu tive de reconstruir minha carreira."
Com tempo vago, Márcia fez alguns cursos na Universidade Federal de São Paulo, onde se criava um departamento especialmente para estudar o sono. Foi a brecha que a levou a ser, no Brasil, pioneira de pesquisas com crianças e adolescentes. O que era uma pequena sala transformou-se em toda uma ala com 17 quartos.
É nesse espaço que ela vê como, por ignorância, crianças são apontadas como burras ou preguiçosas porque não aprendem - quando, na verdade, têm dificuldade de dormir. "Pelo menos 20% dos estudantes sofrem de algum tipo de dificuldade do sono por falhas respiratórias", diz a neuropediatra.
Na adolescência é comum, segundo ela, a mudança no relógio biológico. "É uma mudança incompreendida pelos pais e professores”. Daí a sua proposta de que as escolas aprendam a lição de biologia e deixem os seus alunos ficarem mais tempo na cama. Por enquanto, uma idéia que só apareceria no sonho dos adolescentes.
Fonte: http://aprendiz.uol.com.br/content/cechephepo.mmp

2)Sono Polifásico: opção para otimizar o tempo
Muito utilizado por estudantes, o método não pode ser usado de forma prolongada
Por Olívia Pereira
Dormir bem, durante pelo menos oito horas diárias, é uma questão de saúde pública, dizem os especialistas. Mas nem todos conseguem exercitar o sono de forma adequada. São comuns as reclamações de quem dorme pouco. Incomuns são os relatos de quem dedica pouco tempo ao descanso, e mesmo dormindo pouco, se sentem revigorados, demonstrando energia e capacidade de colocar os pensamentos em ordem. Uma das técnicas adotadas para alcançar esse resultado é o chamado “Sono Polifásico”. É muito usada por estudantes e que precisam dividir o sono em etapas.
Segundo o médico Ademir Baptista da Silva, especialista do sono pela Universidade de São Paulo (USP), dividir o sono em várias fases pode ser uma saída para otimizar o tempo, seja para agüentar firme depois de um show, ou para que uma pessoa dê conta do trabalho. “Basicamente, quem precisa reduzir bruscamente as horas de sono, diárias, deve tirar cochilos de, no máximo, 20 minutos, a cada seis horas”. Além de aumentar a resistência, segundo o médico, a prática do Sono Polifásico garante as necessidades fisiológicas básicas do organismo, amenizando os efeitos provocados pelo desgaste de quem fica muito tempo acordado, como ansiedade, irritação, alterações de percepção e dificuldade de aprendizado.
No contexto de privação de sono, a tendência é que durante as sonecas o corpo vá direto para os estágios mais profundos, que apresentam maiores efeitos fisiológicos de recuperação. Em geral, as pessoas só aproveitam cerca de 30% do tempo de repouso, explica a reumatologista e imunologista ribeirão-pretana, Daniela Aparecida de Moraes. “Quando uma pessoa dorme em etapas, o cérebro passa a reconhecer a urgência do sono e não perde tempo com o superficial; vai direto ao ponto que interessa”.
Os defensores do Sono Polifásico se baseiam no fato de que a maioria dos mamíferos dorme desse jeito. O cão é um exemplo. Os seres humanos, supostamente, tinham um comportamento parecido com o dele quando a sobrevivência se resumia em comer e dormir.
O estudante do quarto ano de Física Médica da USP - Ribeirão Preto, Alexandre Colello Bruno, 23 anos, pratica o Sono Polifásico. Ele diz que utilizou a técnica pela primeira vez quando estava em fase pré-vestibular. Ainda hoje o estudante utiliza-se dela para otimizar seu tempo. “Em época de provas, quando sempre tenho muita matéria para estudar, além de muitos trabalhos, faço uso do Sono Polifásico. É uma saída, já que ele me proporciona mais tempo para que eu possa completar as minhas atividades”.
Alexandre ressalta, entretanto, que o corpo não suportou a prática prolongada dessa técnica. “Não faço isso por muito tempo, senão o meu corpo não agüenta. É melhor dormir apenas uma hora e meia à noite e cochilar por curtos períodos durante o dia, do que dormir por quatro horas seguidas à noite e passar o resto do dia acordado”. Especialistas também recomendam que a prática do Sono Polifásico não deva ser prolongada.
A professora Rosangela Bezerra, 45 anos, não acredita na eficiência do Sono Polifásico. “Para mim, é impossível ficar dormindo desta maneira, mesmo que seja por pouco tempo. Uma boa noite de sono é fundamental para que eu possa levantar bem no outro dia”.
Origem
Em 1920 surgiu o primeiro conceito de Sono Polifásico, depois que estudos constataram que a maioria dos mamíferos (mais de 86% das espécies) dormia dessa forma.
O neurologista Claudio Stampi, fundador do Chronobiology Research Institute, em Boston, nos Estados Unidos, considerado um dos principais especialistas em Sono Polifásico no mundo, foi quem começou a pesquisar essa prática como forma de reduzir os efeitos da falta de sono. Foi na década de 90, com navegadores solitários, que não podiam dormir por muito tempo, em alto-mar.
O Sono Polifásico também é adotado no treinamento de astronautas, de fuzileiros navais e dos soldados americanos que fazem parte da tropa de elite.
Fonte: http://baraodemaua.br/jornal/2006/abril/saude2.htm
Imagem do Blog In Futilidades

sábado, 9 de fevereiro de 2008

ENTREVISTA - Rita Levi-Montalcini, Prêmio Nobel de Medicina - Uma lição de vida

A médica Rita Levi Montalcini, hoje com 98 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Medicina há 21 anos, quando tinha 77! Nasceu em Turím, Itália, em 1909, obteve o diploma de medicina na especialidade de Neurocirurgia.

Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália, um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos, onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger, do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington, de San Louis.

Em 1951 veio ao Brasil, para realizar experiências de culturas em vidro, no Instituto de Biofísica da Universidade do Rio de Janeiro, onde, em dezembro do mesmo ano, a pesquisadora conseguiu identificar o fator de crescimento das células nervosas (Nerve Growth Factor, conhecido como NGF). Esta descoberta lhe valeu, em 1986, o Prêmio Nobel para a medicina, junto com Stanley Cohen.

- Como vai celebrar seus 100 anos?
- Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia!
- E o que a senhora faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem... elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.
- E como está seu cérebro?
- Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade.
- Mas terá algum limite genético?
- Não. Meu cérebro vai ter um século... mas não conhece a senilidade... O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
- Como você faz isso?
- Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
- Ajude-me a fazê-lo.
- Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
- Qual é o segredo para se viver muito?
- A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....
- A sua foi a investigação científica...
- Sim. E segue sendo...
- Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...
- Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o prêmio por isso.
- Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
- Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.
- Seu pai ficou magoado?
- Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia inferior...
- Vejo que isso foi um estímulo...
- Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava na África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem isso era meu grande sonho!
- A senhora tem feito... com sua ciência.
- E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos países islâmicos, por exemplo, além de outras coisas...
- A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
- A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.
- Existem diferenciais entre os cérebros do homem e da mulher?
- Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.
- Por que ainda existem poucas cientistas?
- Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
- É verdade?
- A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação científica: as herdeiras de Hipatia!
- A sábia Alexandrina do século IV...
- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela foi. Claro, o mundo tem melhorado algo...
- Ninguém tentou assassiná-la?
- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição aos judeus... e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto... E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!
- Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
- A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...
- Como você explica a loucura nazista?
- Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!
- Isto está acontecendo agora?
- Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o criacionismo e não o evolucionismo?
- A ideologia é emoção, é sem razão?
-A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós, não! E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!
- Você nunca se casou ou teve filhos?
- Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
- Conseguiremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
- Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
- Qual é hoje seu grande sonho?
- Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.
- Quando deixou de sentir-se feia?
- Ainda estou consciente de minhas limitações!
- Que tem sido o melhor da sua vida?
- Ajudar aos demais.
- O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
- Mas eu estou fazendo!!!!

Fonte: 9 de fevereiro de 2008, Por Fábio Doyle, http://www.brasiliaemdia.com.br/2008/2/8/Pagina3899.htm

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