terça-feira, 1 de julho de 2008

Destino 1 - Como contar a nossa história?

Onde é melhor procurar a origem dos problemas para podermos mudar, dentro ou, fora de nós?  É preciso que os indivíduos "subjetivem", ou "externalizem" seu problema?
- Não sei, depende.
Tocante! 
E a parte que mais gostei foi: "A possibilidade de mudar nossa vida depende de nossa maneira de contá-la" (Epston e White).


Leia abaixo o artigo inteiro do Contardo Calligaris, Como contar a nossa história? Folha de S.Paulo - 12/06/2008.

Um indivíduo, aflito por não encontrar ninguém com quem tocar a vida,
consulta um psicoterapeuta. O que pode fazer o terapeuta?
Nos anos 70, conheci um colega que abandonara sua prática para fundar
uma agência matrimônial.
Ele estava tão preocupado em curar as dores da solidão urbana que
distribuía seus horários de maneira a produzir encontros "acidentais",
em sua sala de espera, entre pacientes que lhe pareciam "compatíveis".
No fim, ele decidiu que tinha mais vocação casamenteira que
terapêutica.
Provavelmente, meu colega se importava tanto com a felicidade amorosa
dos outros porque, quando criança, ele não tinha sido razão suficiente
para que seus pais continuassem se amando. Igual, o fato é que,
mudando de profissão, ele conseguiu fazer algo interessante com seu
sintoma -o que já é bom.
Seja como for, quando comecei minha formação de terapeuta,
ensinaram-me que, antes de mais nada, era preciso que os pacientes
"subjectivassem" seu problema. Ou seja, dito em palavras menos
bárbaras, para que o trabalho terapêutico fosse eficiente,
a gente
deveria primeiro fazer com que os pacientes se convencessem de que
suas dificuldades eram, ao menos em parte, internas. Portanto, um
paciente que se queixasse de não encontrar companhia deveria ser
encorajado a "internalizar" seu problema, ou seja, a contar sua
história questionando o que haveria de "errado" NELE (falta de
disponibilidade, avareza ao se entregar, covardia do desejo etc.). Aí,
poderíamos ajudá-lo a mudar. "Internalizar" (e não fundar uma agência
matrimônial) era, em suma, a atitude certa.
Outro exemplo, oposto. Um paciente consulta um terapeuta porque ele
sofre de "depressão" ou de "déficit de atenção" -assim lhe foi dito
pelo profissional que diagnosticou a doença e prescreveu a medicação.
O dito paciente fala de "sua doença" como se ela fosse um atributo de
seu ser, um traço defeituoso de sua identidade. Com isso, ele mal vai
conseguir contar seus percalços: se o problema é tão intimamente
ligado ao que ele é, que diferença sua história pode fazer?
Dessa vez, a atitude certa não seria ajudá-lo a procurar as origens de
"sua doença" FORA de sua identidade, ou seja,
a "externalizar" sua
doença?
Nos anos 1990, li "Narrative Means to Therapeutic Ends" (meios
narrativos para fins terapêuticos -ed. Norton), de David Epston e
Michael White, terapeutas australianos. A obra me fez uma forte
impressão, reavivada, nestes dias, pela notícia da morte de Michael
White, aos 59 anos, e pela leitura do livro que ele publicou em 2007,
"Maps of Narrative Practice" (mapas da prática narrativa - ed.
Norton). Detalhe: há outro Michael White, escritor de romances e
história da ciência - ele não morreu.
Epston e White eram convencidos de que a possibilidade de mudar nossa
vida depende de nossa maneira de contá-la. Também, eles eram leitores
cuidadosos de Michel Foucault e pensavam que tudo o que contribui à
criação de uma identidade fixa é opressivo e repressivo. Uma
estratégia narrativa e terapêutica que eles propunham consistia em
evitar que o paciente considerasse sua doença ou seu problema como
parte de sua identidade. Eles preferiam sempre levar o paciente a
"externalizar", ou seja, a narrar suas dificuldades como se fossem
externas, percalços ou ataques vindos de fora.
Aviso: antes de discordar deles, é bom ler os exemplos clínicos em
que, em seu último livro, White leva uma criança (e os pais da mesma)
a narrar sua batalha contra a Senhora Encopresia, que suja as cuecas e
os lençóis, o Senhor Déficit, que impede de estudar, etc., como se
fossem bruxas ou elfos do mal.
Então: para mudar, é melhor "externalizar" nossos problemas, com o
risco de descuidar das dinâmicas íntimas que nos governam, ou é melhor
"internalizá-los", com o risco de hipertrofiar nossa identidade?
Não sei, depende.
Mas, sei que, por exemplo, nas eleições presidenciais nos EUA, muito
além das questões que serão debatidas (a guerra, a economia, o sistema
de saúde), a aposta é esta: será que os eleitores conseguirão pensar
sua história (nacional e privada) como sugerem Epston e White? Será
que saberão narrá-la como a história de uma comunidade de indivíduos,
brancos, negros e latinos, que se chocaram e detestaram em mil
ocasiões, mas não por isso concebem seu destino como conseqüência de
identidades fixas e opostas

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